Lucas 15: 11. Jesus continuou: "Um homem tinha dois filhos.
12. O mais novo disse ao seu pai: ‘Pai, quero a minha parte da herança’. Assim, ele repartiu sua propriedade entre eles.
13. "Não muito tempo depois, o filho mais novo reuniu tudo o que tinha, e foi para uma região distante; e lá desperdiçou os seus bens vivendo irresponsavelmente.
14. Depois de ter gasto tudo, houve uma grande fome em toda aquela região, e ele começou a passar necessidade.
15. Por isso foi empregar-se com um dos cidadãos daquela região, que o mandou para o seu campo a fim de cuidar de porcos.
16. Ele desejava encher o estômago com as vagens de alfarrobeira que os porcos comiam, mas ninguém lhe dava nada.
17. "Caindo em si, ele disse: ‘Quantos empregados de meu pai têm comida de sobra, e eu aqui, morrendo de fome!
18. Eu me porei a caminho e voltarei para meu pai, e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e contra ti.
19. Não sou mais digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus empregados’.
20. A seguir, levantou-se e foi para seu pai. "Estando ainda longe, seu pai o viu e, cheio de compaixão, correu para seu filho, e o abraçou e beijou.
21. "O filho lhe disse: ‘Pai, pequei contra o céu e contra ti. Não sou mais digno de ser chamado teu filho’.
22. "Mas o pai disse aos seus servos: ‘Depressa! Tragam a melhor roupa e vistam nele. Coloquem um anel em seu dedo e calçados em seus pés.
23. Tragam o novilho gordo e matem-no. Vamos fazer uma festa e comemorar.
24. Pois este meu filho estava morto e voltou à vida; estava perdido e foi achado’. E começaram a festejar.
25. "Enquanto isso, o filho mais velho estava no campo. Quando se aproximou da casa, ouviu a música e a dança.
26. Então chamou um dos servos e perguntou-lhe o que estava acontecendo.
27. Este lhe respondeu: ‘Seu irmão voltou, e seu pai matou o novilho gordo, porque o recebeu de volta são e salvo’.
28. "O filho mais velho encheu-se de ira, e não quis entrar. Então seu pai saiu e insistiu com ele.
29. Mas ele respondeu ao seu pai: ‘Olha! todos esses anos tenho trabalhado como um escravo ao teu serviço e nunca desobedeci às tuas ordens. Mas tu nunca me deste nem um cabrito para eu festejar com os meus amigos.
30. Mas quando volta para casa esse seu filho, que esbanjou os teus bens com as prostitutas, matas o novilho gordo para ele! ’
31. "Disse o pai: ‘Meu filho, você está sempre comigo, e tudo o que tenho é seu.
32. Mas nós tínhamos que comemorar e alegrar-nos, porque este seu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi achado’ ".
Estamos diante de um texto muito conhecido, trata-se de uma das mais famosas parábolas de Jesus, uma história que já alcançou muitas pessoas através de pregações, canções, encenações, enfim, de todas as formas que foram possíveis, essa história já abençoou muitas pessoas com sua mensagem de amor e restauração.
Com este texto gostaria de junto com você meu amigo leitor, mergulhar mais fundo nesta história, mas agora dando essa ênfase na questão do cristianismo, dentro de sua proposta no evangelho e da religiosidade, tanto a judaica, como a moralidade religiosa como um todo, não se prendendo apenas aos princípios e valores cristãos, mas também entendendo que outras religiões preservam seus valores morais e consequentemente vão transformando pessoas a viverem uma vida moralmente correta diante da sociedade.
Olhamos para o filho mais novo, sua atitude em pedir sua herança quando ainda estava vivo o seu pai, vemos a precipitação de um jovem que quer conhecer o mundo lá fora, que gasta tudo o que tem de forma desordenada e que no fundo do poço deseja comer a própria comida dos portos que tomava conta, até que lembra da casa do Pai, cai em si e volta arrependido. Para muitos este é o filho perdido, mas ao analisar todo o texto dentro do contexto, entendemos que Jesus está falando de dois filhos perdidos, porém em situações diferentes.
O homem criado, mesmo após o pecado, sabia que viera de Deus, mesmo assim tomou a decisão de se afastar da presença de Deus, a Graça de Deus sempre foi posta diante dos homens para que pudessem manter um relacionamento com Ele, o exemplo principal disso é a vida de Caim após matar seu irmão Abel, Caim recebeu de Deus palavras de juízo, Deus falara apenas que Caim colheria os frutos da sua maldade, sofreria as consequências da maldade que fez, Caim derramou na terra sangue inocente e a própria terra trataria Caim de acordo com sua maldade. Mas a história não termina assim, Caim diz para o Senhor que o mal que ele havia feito não tinha perdão, que os homens que o encontrassem o matariam, muitos interpretam o sinal que Deus colocou em Caim sempre da pior forma, muitas especulações são feitas sobre este sinal, porém eu vejo não algo mal da parte de Deus ao colocar este sinal, mas com aquela marca Caim seria reconhecido e aquele que o matasse seria vingado pelo próprio Deus sete vezes, Deus não o estava punindo, não estava sentenciando-o à morte, pelo contrário, estava lhe assegurando a vida, isso é graça, é receber proteção e vida, mesmo sendo um assassino do seu próprio irmão.
Deus agiu com misericórdia e Graça com Caim, porém veja o que este fez:
Gênesis 4: 16. Então Caim afastou-se da presença do Senhor e foi viver na terra de Node, a leste do Éden.
Caim não fugiu geograficamente da presença de Deus, o salmo 139 nos deixa claro que isso não é possível, o que a Bíblia está nos dizendo é que mesmo após receber a Graça de Deus, mesmo recebendo vida sem merecer, Caim escolheu se afastar da presença de Deus. Caim foi apenas o primeiro de muitos que decidiram fugir da presença de Deus, hoje temos muitos como Caim, fugindo de diversas formas, se entregando a todo tipo de pecado, muitos até dizendo que não existe um Criador, mas isso está no coração de todo ser humano, infelizmente muitos não querem se apegar a essa Graça que nos foi oferecida e vivem em uma fuga constante da presença do Criador, podemos dizer que estes são "filhos" que decidiram "fugir de casa", decidiram que a presença do Pai não é tão relevante, existe um mundo de possibilidades e a presença de Deus, ou a casa do Pai não estão em primeiro lugar. Penso que este é o filho mais novo, o filho que não tem uma noção mais abrangente da vida, do mundo ao seu redor, inclusive do mundo espiritual, este filho mais novo é o tipo de pessoa que se deixa seduzir muito fácil por coisas materiais, prazeres, ou até mesmo falsas doutrinas, sendo assim acaba vivendo cada vez mais distante do Pai, nos dias em que Jesus andou sobre a terra, estes eram os gentios, os publicanos, as prostitutas, os pecadores que a religião judaica olhava com olhos altivos, pois eram incircuncisos, não tinham o sangue de Abraão correndo em suas veias.
Agora precisamos entender o filho que não saiu de casa, entender o porquê de ele também estar perdido. Este filho nunca saiu de casa como o seu irmão mais novo, nunca fez algo que desonrasse seu pai como seu irmão, pois a atitude do irmão ao pedir a herança antes da morte era um descaso com a vida do seu pai, era uma desonra para a família, não só isso, era também transgredir um dos 10 mandamentos que estavam gravados nas tábuas da Lei.
Êxodo 20: 12. "Honra teu pai e tua mãe, a fim de que tenhas vida longa na terra que o Senhor teu Deus te dá.
Quando olhamos para este mandamento e não conhecemos o plano de fundo sobre o juízo que viria sobre um filho que desonrasse seu pai, não entenderemos nessa mesma profundidade o que aconteceu na história dos filhos perdidos, pois quando Deus fala que honrando os dias seriam prolongados, logo, desonrando os pais eles seriam mortos. Geralmente quando lemos isso pensamos que este filho vai sofrer por azar morrer, vai ser picado por uma cobra, vai contrair uma doença repentina, vai sofrer um acidente e sua vida será interrompida, isso é sim possível acontecer, Deus é aquele que faz justiça, e a justiça de Deus não faz dEle um Deus malvado, pois Deus para mostrar sua fidelidade ao fiel usa de sua balança justa para julgar o infiel, Deus não vai me vingar da maldade que fizeram comigo, mas a bíblia é clara que Deus não trata o culpado por inocente.
Naum 1: 2. O SENHOR é Deus zeloso e vingador! O SENHOR é vingador! Seu furor é terrível! O SENHOR executa vingança contra os seus adversários e manifesta o seu furor contra os seus inimigos.
3. O SENHOR é muito paciente, mas o seu poder é imenso; o SENHOR não deixará impune o culpado. O seu caminho está no vendaval e na tempestade, e as nuvens são a poeira de seus pés.
Quando cometemos pecados, nos tornamos culpados diante de Deus, quando desobedecemos seus mandamentos nos tornamos inimigos de Deus e Ele não tratará inimigos culpados por inocentes, então quando um filho tratava seu pai com tamanha desonra, não era simplesmente a vida que daria um jeito de matá-lo, mas a própria comunidade que o faria.
Deuteronômio 21: 18. Se um homem tiver um filho obstinado e rebelde que não obedece a seu pai nem à sua mãe e não os escuta quando o disciplinam,
19. o pai e a mãe o levarão aos líderes da sua comunidade, à porta da cidade,
20. e dirão aos líderes: "Este nosso filho é obstinado e rebelde. Não nos obedece! É devasso e vive bêbado".
21. Então todos os homens da cidade o apedrejarão até à morte. Eliminem o mal do meio de vocês. Todo o Israel saberá disso e temerá.
Esta lei parece não estar exatamente dentro do processo do filho mais novo, mas está sim, pois este decidiu não dar ouvido ao seu pai que era a principal autoridade que Deus havia posto em sua vida, pediu a herança com o pai ainda vivo demonstrando completa falta de consideração, agiu de forma obstinada, quando foi embora gastou sua herança se embriagando e prostituindo-se até que desperdiçou todos seus recursos, a comunidade nestes casos com toda certeza estava ciente do que o jovem fizera e certamente ao regressar para a sua terra poderia ser o seu fim, pois certamente seria apedrejado. Por isso o pai corre ao encontro desse filho, para que antes de qualquer um condená-lo o Pai perdoa e o protege em seus braços, coloca roupas novas, anel em seu dedo e faz festa para que todos se alegrassem com o retorno do filho, tudo nesta parábola é proposital, ele disse que o filho morreu, mas agora vive, o Pai quer dizer que o filho rebelde já havia morrido quando foi para a terra distante, mas agora ele tinha um novo filho e sendo assim ninguém tinha direito de o apedrejar, compreendendo isso, nós entenderemos o tamanho do amor e da Graça a nós oferecida.
Porém o filho mais velho não passou por este processo, ele sempre esteve na casa, sempre fez tudo o que o pai pediu, tudo o que estava no quadro de afazeres, ele cumpriu. Este filho nos revela com clareza a religião e o religioso, o que a religião faz, ela estabelece regras morais e espirituais, regras que vão nos levar a nos relacionar melhor com o próximo e aparentemente, com Deus. A religião estabelece a forma que temos que orar, o tempo, os dias, a forma de vestir, a forma de falar, são as regras escritas que precisam ser feitas, se não forem, estamos desqualificados perante a comunidade como legítimos filhos de Deus, o religioso é aquele que consegue cumprir todas as regras da casa, consegue fazer tudo o que é pedido, consegue convencer a todos que é um filho obediente e comprometido com as demandas da casa e do trabalho da casa, mas o religioso expressa algo com a sua alma, ele não faz por amor, ele não se sente honrado por fazer o trabalho, mas busca constantemente ser honrado ao fazer, ele não consegue sentir prazer ou desfrutar o fato de ser filho, mesmo com um anel no dedo, sentado à mesa como filho, mesmo assim se sente um escravo, tudo o que faz lhe é pesado, olha o que Paulo nos diz sobre essa sensação.
Romanos 8: 15. Pois vocês não receberam um espírito que os escravize para novamente temer, mas receberam o Espírito que os adota como filhos, por meio do qual clamamos: "Aba, Pai".
16. O próprio Espírito testemunha ao nosso espírito que somos filhos de Deus.
17. Se somos filhos, então somos herdeiros; herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo, se de fato participamos dos seus sofrimentos, para que também participemos da sua glória.
Hoje nós não devemos mais sentir o peso de servidão na presença de Deus, nada que vamos fazer deve ser feito com peso de obrigação, mas deve ser feito com a leveza do amor, entendendo que é para o nosso Aba. Seria incoerente, deixarmos de sentir o peso do pecado e agora sentir o peso das exigências da religião, antes nos sentíamos oprimidos pela moralidade que não tínhamos, agora nos sentimos oprimidos pela moralidade que somos "obrigados" a ter na casa do Pai, onde fazer o que está escrito não nos faz feliz.
O filho mais velho é o exemplo do religioso, nunca saiu da igreja, sempre fez tudo certinho, e isso deveria tê-lo feito ser grato, já que viu as consequências na vida do irmão mais novo ao se distanciar da presença do Pai, mas ao invés disso, nesta parábola revela seus mais profundos sentimentos, ele se achava melhor do que o irmão que se perdeu lá fora, ele achava que merecia mais do Pai, ele se recusou entrar na festa, ou seja, não tinha motivos para se alegrar com o retorno do irmão, ele também achava que o irmão não merecia ser recebido, tudo isso foi demonstrado na reação do irmão mais velho.
Há um grande perigo quando passamos a ser religiosos, pois podemos nos tornar hipócritas, podemos trabalhar perfeitamente para convencer a todos de que somos bons filhos, pois sempre fazemos o que nos é mandado, sendo assim podemos até assumir posições elevadas na casa, quero meditar com você em uma outra parábola e veremos o quanto ser um perfeito religioso pode nos destruir.
Mateus 24: 45. "Quem é, pois, o servo fiel e sensato, a quem seu senhor encarrega dos de sua casa para lhes dar alimento no tempo devido?
46. Feliz o servo a quem seu senhor encontrar fazendo assim quando voltar.
47. Garanto-lhes que ele o encarregará de todos os seus bens.
48. Mas suponham que esse servo seja mau e diga a si mesmo: ‘Meu senhor se demora’,
49. e então comece a bater em seus conservos e a comer e a beber com os beberrões.
50. O senhor daquele servo virá num dia em que ele não o espera e numa hora que não sabe.
51. Ele o punirá severamente e lhe dará lugar com os hipócritas, onde haverá choro e ranger de dentes".
Nesta parábola vemos a descrição de Jesus sobre alguém que claramente assumiu um lugar de responsabilidade na sua casa, nós aqui estamos vendo o retrato de um líder, de um pastor, mas este líder não foi colocado nesta posição por sorte, ele foi visto como observamos no versículo 45 como um servo sensato e fiel, e ao convencer ao seu senhor de que era sensato e fiel foi posto nesta função de grande responsabilidade, com toda certeza este servo cumpria todos os seus afazeres, era impecável em tudo e por isso foi visto como apto para assumir, mas Jesus muda toda a história ao supor que este servo fosse mal, Jesus está querendo dizer que o servo foi impecável e conseguiu convencer a todos de que era um grande servo, mas sua natureza ainda era má, Jesus descreveu o que aconteceria na casa e que no dia da prestação de contas este servo seria lançado junto aos hipócritas, pois foi este o seu pecado, foi convencer a todos de que era um bom servo. Querido leitor, a religião nos faz ser cumpridores de regras, a ponto de convencermos a todos e corrermos o risco de não termos nossa natureza transformada, eis o grande perigo da religião.
O que tem de diferente na vida cristã? Não seremos moralmente corretos? Viveremos pecando ou saindo da casa do Pai?
Não é isso que estou dizendo, uma vida cristã é também uma vida que busca cumprir a Palavra, toda a Lei de Deus, mas não fazemos para cumprir simplesmente regras, fazemos por amor, não fazemos para sermos honrados, fazemos porque entendemos que todos nós estávamos destituídos da Glória de Deus, independente de termos anteriormente uma vida moralmente correta, mesmo se fôssemos as melhores pessoas do mundo, estávamos diante de um muro que nos separava de Deus, muro da mesma altura que o imoral tinha entre ele e Deus, mas o sacrifício perfeito de Cristo derrubou esta muralha, dando-nos então acesso e possibilitando, gentios, gregos, judeus, pecadores em todos os níveis, a este lugar de honra na casa e na mesa do Pai.
Efésios 2: 11. Portanto, lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne, e chamados incircuncisão pelos que na carne se chamam circuncisão feita pela mão dos homens;
12. Que naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo.
13. Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto.
14. Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio,
15. Na sua carne desfez a inimizade, isto é, a lei dos mandamentos, que consistia em ordenanças, para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz,
16. E pela cruz reconciliar ambos com Deus em um corpo, matando com ela as inimizades.
17. E, vindo, ele evangelizou a paz, a vós que estáveis longe, e aos que estavam perto;
18. Porque por ele ambos temos acesso ao Pai em um mesmo Espírito.
19. Assim que já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos santos, e da família de Deus;
Deus através do sacrifício de Cristo na cruz derrubou a muralha que nos colocava em uma posição de inimigos de Deus, agora somos família de Deus, na parábola dos filhos perdidos em Lucas 15, ambos são filhos, ainda que diferentes, porém o que fará a diferença na vida dos filhos é o arrependimento e a gratidão e prazer pelo privilégio de ser filho de Deus.
Efésios 2: 1. Vocês estavam mortos em suas transgressões e pecados,
2. nos quais costumavam viver, quando seguiam a presente ordem deste mundo e o príncipe do poder do ar, o espírito que agora está atuando nos que vivem na desobediência.
3. Anteriormente, todos nós também vivíamos entre eles, satisfazendo as vontades da nossa carne, seguindo os seus desejos e pensamentos. Como os outros, éramos por natureza merecedores da ira.
4. Todavia, Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou,
5. deu-nos vida juntamente com Cristo, quando ainda estávamos mortos em transgressões — pela graça vocês são salvos.
Se nós olharmos pela ótica da moralidade, Paulo não deveria usar o "nós" vivíamos satisfazendo a vontade da carne, Paulo não era um homem de baladas, de viver embriagado, de estar se prostituindo, pelo contrário, fariseu, homem honrado e respeitado vivendo uma vida piedosa em sua religião, mas agora que entende que uma vida moral não o faz santo, se esta vida não atravessar a porta da Graça, se esta vida não entrar pelo caminho que foi aberto na Cruz, nossa moralidade antes da Graça são trapos de imundícia diante de Deus, pois como na vida do filho mais velho, ela nos fará soberbos, nos fará desprezar o próximo, vamos verificar outro exemplo.
Lucas 18: 9. A alguns que confiavam em sua própria justiça e desprezavam os outros, Jesus contou esta parábola:
10. "Dois homens subiram ao templo para orar; um era fariseu e o outro, publicano.
11. O fariseu, em pé, orava no íntimo: ‘Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens: ladrões, corruptos, adúlteros; nem mesmo como este publicano.
12. Jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho’.
13. "Mas o publicano ficou à distância. Ele nem ousava olhar para o céu, mas batendo no peito, dizia: ‘Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador’.
14. "Eu lhes digo que este homem, e não o outro, foi para casa justificado diante de Deus. Pois quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado".
Este fariseu era impecável no cumprimento da Lei, ser um cumpridor da Lei o fez um religioso, ele cumpria as regras, mas seu coração era tomado pela vaidade e soberba. É importante notar que ele está orando no íntimo, as coisas que estão no seu coração não são expostas, sua forma de julgar as pessoas, mas Jesus disse que o publicano (um dos pecadores mais detestáveis pela religião judaica) saiu daquele lugar justificado.
A sensação de estar convencendo a todos de que somos piedosos, santos e cumpridores das regras da religião pode ser um laço de engano, nos é necessário passar pela experiência do novo nascimento, ter uma vida regenerada por Deus, isso começa de dentro para fora, daí sim, faremos tudo o que nos é exigido na Lei, mas não faremos para provar às pessoas, mas faremos porque isso faz parte da nossa natureza.
O novo nascimento nos possibilitará fazer o que Jesus ensina no sermão do monte, algumas atitudes que humanamente parecem impossíveis, Jesus ensina sobre o fazer além do que é esperado, o cristianismo é uma maneira de viver que nos leva além da religião.
Mateus 5: 39. Mas eu lhes digo: Não resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra.
40. E se alguém quiser processá-lo e tirar-lhe a túnica, deixe que leve também a capa.
41. Se alguém o forçar a caminhar com ele uma milha, vá com ele duas.
42. Dê a quem lhe pede, e não volte as costas àquele que deseja pedir-lhe algo emprestado".
Estes ensinamentos não fazem parte da religião, a religião se contenta apenas em fazer a primeira parte do ensinamento de Jesus, porém Cristo nos ensina que nós não somos movidos pelas regras, somos movidos pelo Espírito e este mesmo Espírito nos condiciona a ir além.
Dar a outra face.
Não necessitamos nos aprofundar muito neste texto, mas podemos entender o que Jesus está dizendo aqui, quem fere na face, não apenas bate, mas essa forma de agressão é também uma forma de humilhação, talvez você que está lendo já foi agredido na face e sabe o que estou lhe falando, Jesus ao ensinar isso não está apenas falando sobre não retribuir as agressões que alguém nos faz, mas não retribuir ainda que estas agressões nos humilhem, ainda que elas nos deixem marcas expostas que não conseguiremos esconder, todos os que olharem para nós poderão vê-las, mesmo assim, não devemos devolver a agressão, Jesus disse que o agressor é perverso, ao agirmos da mesma maneira deixaremos de agir como nova criatura e nos assemelharemos ao perverso.
Deixar levar a capa.
Jesus nos ensina a sofrer o prejuízo sem nos sentirmos derrotados, o prejuízo no ensino seria a perda da túnica, pois por ela alguém iria agir com um processo para tomá-la, mas Jesus nos ensina aqui a não nos apegarmos a ela a ponto de aceitar entrar na briga, mesmo que entendêssemos que é de direito nosso, Jesus não apenas nos orienta a deixarmos levar a túnica, mas ir além, deixar que leve a capa em demonstração de desapego total às coisas materiais e com uma demonstração real de que elas nunca serão motivo para criar raiz de inimizade no nosso coração. É importante ressaltar que Jesus usa apenas o exemplo de uma túnica e capa, mas que estes exemplos servem para todas as coisas de valor material e que vale a pena abrir mão do que seja para preservar a nossa alma descontaminada, e também porque essas coisas que revelarão nossa real natureza e identidade espiritual.
Vá com ele duas milhas.
Jesus ao ensinar isso, conseguia ser entendido com facilidade nos seus dias, para nós talvez seja um pouco mais difícil. Naquele tempo os romanos dominavam sobre o povo de Israel e os soldados romanos exerciam este poder de forma que podiam obrigar um cidadão a carregar algo por uma milha, dali em diante poderia obrigar outro cidadão a continuar carregando, o cidadão poderia estar ocupado em qualquer coisa, os soldados romanos obrigavam eles a carregarem aquele peso de forma legal diante da própria lei deles (livro- O Sermão do Monte, D. Martin Lloyd-Jones).
Caminhar uma milha era desagradável a qualquer pessoa, era carregar um peso que não lhe pertencia e que o tirava das suas próprias atividades, qualquer um se sentiria abusado por essa exigência e a faria com muita má vontade e raiva, mas Jesus está ensinando que quando você faz apenas o que lhe é mandado, você não está manifestando nada diferente do que qualquer outro cidadão poderia manifestar, um religioso ou um publicando caminhariam uma milha se fossem obrigados, mas Jesus está nos ensinando a caminhar a segunda milha, ou seja, aquela que não é feita por obrigação e sim por amor. Precisamos entender este ensinamento, ele é determinante para dizer se somos bons servos do Senhor ou se somos inúteis, o servo que só faz o que a religião diz, as regras exigem, é chamado de servo inútil, nós somos chamados a fazer além do que a religião nos exige, somos chamados e motivados pelo Espírito.
Lucas 17: 10. Assim também vocês, quando tiverem feito tudo o que lhes for ordenado, devem dizer: ‘Somos servos inúteis; apenas cumprimos o nosso dever’ ".
Jesus disse essa parábola após ensinar sobre o perdão, que seus discípulos deveriam repreender seu irmão caso ele pecasse contra eles, mas se este se arrependesse, ainda que sete vezes no dia, que eles deveriam perdoá-lo, eles disseram então: "Senhor, aumenta a nossa fé!". Eles achavam que isso era muito, estava além das possibilidades deles, pois a lei não exigia que perdoassem tanto, ela ensinava que era olho por olho e dente por dente, se alguém pecasse contra alguém, a conta não chegaria no dia do juízo de Deus apenas, a própria pessoa iria atrás de justiça e condenaria aquele que cometeu o pecado. Não há erro em buscar justiça, é nosso direito, é a regra, podemos exigir que ela seja cumprida pelo próximo, e caso este não cumpra, temos o direito de exigir que seja punido pela lei, a religião age assim, o cristianismo vai além, ele não despreza a lei, ele revela o quanto a lei pode ser cumprida se ela é observada em amor, eu posso exigir que a lei e o juízo seja feito com aquele que me prejudicou, mas eu também posso perdoá-lo se eu quiser, ou se eu tiver capacidade para isso. Algumas pessoas vêm me perguntar sobre o divórcio quando estou dando palestras para casais, geralmente falam que o próprio Jesus também deixou uma brecha para que o divórcio possa ser aceito diante de Deus, ou seja, a destruição de uma família, as pessoas falam como se Deus assinasse embaixo aquela certidão de destruição da família, mas precisamos entender algo muito relevante sobre a questão do divórcio, pois os religiosos acreditavam que podiam fazer isso sem ferir sua devoção para com Deus, já que existia uma regra escrita que dava a eles condições de se separarem de suas esposas.
Mateus 19: 3. Alguns fariseus aproximaram-se dele para pô-lo à prova. E perguntaram-lhe: "É permitido ao homem divorciar-se de sua mulher por qualquer motivo? "
4. Ele respondeu: "Vocês não leram que, no princípio, o Criador ‘os fez homem e mulher’
5. e disse: ‘Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne’?
6. Assim, eles já não são dois, mas sim uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, ninguém o separe".
7. Perguntaram eles: "Então, por que Moisés mandou dar uma certidão de divórcio à mulher e mandá-la embora? "
8. Jesus respondeu: "Moisés lhes permitiu divorciar-se de suas mulheres por causa da dureza de coração de vocês. Mas não foi assim desde o princípio.
Mateus 19: 9. Eu lhes digo que todo aquele que se divorciar de sua mulher, exceto por imoralidade sexual, e se casar com outra mulher, estará cometendo adultério".
Algumas coisas precisam ficar claras neste ensinamento de Jesus, os religiosos tinham base na lei de Moisés para que pudessem se divorciar de suas esposas e isso não os atrapalharia em nada na sua vida religiosa, era como se pensassem, "eu só não posso fazer aquilo que não está escrito", mas Jesus veio ensinar que uma vida com Deus sempre vai fazer além do que está escrito na regra da religião, entenda que não é além do que a bíblia diz, pois o próprio Jesus está ensinando o que eles deveriam fazer de acordo com a própria Palavra de Deus, esta Palavra que quando entendida nos convencerá a fazer mais do que a religião nos exige.
Primeira coisa, não era por qualquer motivo que poderia se separar.
Segundo, a referência de matrimônio não é a que foi estabelecida após a Lei entregue por Moisés, mas o casal que Deus criou e colocou no Éden, "no princípio não era assim", e Jesus usa o primeiro casal como referência ao explicar sobre o divórcio.
Terceiro, a certidão de divórcio só foi permitida pela dureza do coração deles, quando há um divórcio, não é porque Deus quis assim e sim porque o coração de ambos, ou mesmo de um dos cônjuges está endurecido.
Ainda que Jesus tenha dito que o caso da imoralidade sexual é uma razão justificável para o divórcio, não podemos abrir mão do mandamento superior que é o amor a Deus e semelhante a este, o amor ao próximo, a condição de julgar imperdoável o ato de traição do cônjuge não anula a condição de perdoá-lo, perdoar quem cometeu um erro e se pôs na brecha do que está escrito e que me condiciona a agir conforme a regra do divórcio é uma opção, mas não a única, pois por experiência de anos aconselhando pessoas, melhor seria se houvesse o perdão e que o casal continuasse lutando pela família, pois nem sempre um erro como esse é o sinal de que aquela família deve acabar, daí entenderemos com clareza que a dureza do coração do homem tanto em trair, como também após o erro, em não perdoar o que traiu, poderá resultar neste divórcio, e que perdoar mesmo que a regra da religião me condicione a deixá-lo, será o mesmo que caminhar a segunda milha. Não somos servos inúteis, pois não fazemos apenas o que nos foi mandado, estamos prontos a perdoar o imperdoável pelo poder do Espírito que nos governa.
Dê a quem lhe pede, e não volte as costas àquele que deseja pedir-lhe algo emprestado.
Aqui fechamos essa parte e com muito mais clareza, a religião nos pede algo, nós faremos porque somos cumpridores e não rebeldes, mas ainda que não peça, nós faremos apenas por entender que é o desejo de Deus que façamos, ir além da religião é fazer algo movidos não apenas pelo que nos é mandado, exigido, pedido, ou que esteja escrito, é sermos movidos por amor.
Mateus 5: 46. Se vocês amarem aqueles que os amam, que recompensa receberão? Até os publicanos fazem isso!
47. E se vocês saudarem apenas os seus irmãos, o que estarão fazendo de mais? Até os pagãos fazem isso!
48. Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês [sejam perfeitamente parecidos com o Pai de vocês]".
Jesus foi pesado e proposital em suas palavras, os religiosos achavam-se cumpridores da Lei com tudo o que faziam, Jesus disse que tanto os publicanos, estes que tinham sangue israelita, porém considerados traidores da nação, como também os gentios, estes que não temiam a Deus, não tinham a marca da aliança que era a circuncisão, Jesus está dizendo que os religiosos não fazem nada do que eles também não façam, mas nós deveremos fazer muito mais, e por que faremos mais? Porque todos os dias estamos nos tornando mais parecidos com o nosso Pai celestial.A igreja de Éfeso que foi mais elogiada do que repreendida no livro de Apocalipse capítulo 3 tinha apenas um problema, em meio aos seus atos de defesa da pureza das verdades das Escrituras, em meio a perseverança e do trabalho, ela havia perdido o primeiro amor, talvez se olhássemos para essa igreja de forma superficial, diríamos que ela cumpre muito bem o seu papel, que ela é impecável, mas a perda deste amor que Jesus mencionou fez dela uma igreja reprovada, podemos cumprir todas as regras, estarmos movidos em todas as atividades da casa do Pai, ainda assim corremos o risco de vivermos como o filho mais velho da parábola dos filhos perdidos, que sejamos gratos pela posição de honra a nós concedida, que possamos entender que é por Graça que nos assentamos à mesa, sendo assim viveremos autenticamente o cristianismo a nós proposto.
#PenseNisso

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